Poita Náutica: O que você não vê coloca seu barco em risco

Conteúdo original gravado nas Marinas Nacionais em Guarujá com Tomás Soffiati, Diretor das Marinas Nacionais, e João Roberto Chaves, da Unináutica.
Publicado originalmente: fevereiro de 2024  ·  Atualizado: julho de 2026

Por João Roberto Chaves · Com Tomás Soffiati, Diretor das Marinas Nacionais · Unináutica

Quando você pega a boia e amarra o barco, está vendo a ponta de um iceberg. O que mantém sua embarcação segura está a dezenas de metros abaixo, no fundo do mar — e você provavelmente nunca viu. Neste episódio do Mar de Amigos, Tomás Soffiati, Diretor das Marinas Nacionais em Guarujá, mostra ao vivo como é construída e mantida uma poita, o que pode falhar e quem é responsável por isso.

O que o episódio mostra ao vivo: uma corrente de 19mm galvanizada a fogo, retirada durante a última revisão das Marinas Nacionais, que havia fundido por corrosão — carga de ruptura próxima de zero. A boia acima dela, na superfície, estava aparentemente em bom estado.

O Que é Realmente uma Poita — A Confusão Mais Comum

A maioria das pessoas que navega no litoral chama a boia colorida de “poita”. Está errada. Tomás Soffiati esclarece logo no início do episódio:

“Isso daqui é só a boia de sinalização da poita. A poita mesmo — uma estrutura de concreto pesadíssima — fica lá no fundo do mar.”

— Tomás Soffiati, Diretor das Marinas Nacionais, fevereiro de 2024

Elemento O Que É Onde Fica
Poita Bloco de concreto com alça de inox — o âncora permanente No fundo do mar, enterrada
Corrente Corrente galvanizada a fogo de 19mm Entre a poita e o cabo, submersa
Cabo de poita Cabo de 2,5 a 3 polegadas, ~40 metros Da corrente até a superfície
Boia de sinalização Flutuador colorido — apenas sinalização Na superfície da água

O que o marinheiro pega e amarra no barco é o cabo de poita — não a poita. A poita real fica invisível no fundo, e é exatamente por isso que a maioria dos navegadores nunca sabe o estado real do sistema onde está deixando o barco.

Como Funciona o Sistema Completo

Marinas sérias não trabalham com sistema simples — trabalham com sistema duplo de segurança. Tomás Soffiati explica a lógica:

“Os dois sistemas de segurança que a gente tem são tudo dobrado: dois cabos, dois sistemas de corrente, dois sistemas de poita. Se um estourar, tem o outro sobressalente.”

— Tomás Soffiati, Diretor das Marinas Nacionais, fevereiro de 2024

O sistema completo de uma vaga com poita nas Marinas Nacionais em Guarujá funciona assim:

Componente Especificação Função
Poita de concreto ~1,5 m³ de concreto, ~3 toneladas por unidade Âncora permanente no fundo — barcos maiores usam 2 a 3 unidades
Alça e barra de inox Inox soldado em barra de 1,5 polegada com ferragem giratória Ponto de conexão entre poita e corrente — permite rotação sem torção
Corrente galvanizada 19mm, galvanizada a fogo Trecho submerso entre poita e cabo — parte mais durável do sistema
Cabo de poita 2,5 a 3 polegadas, ~40 metros Trecho que sobe da corrente até a boia e é amarrado no barco
Boia de sinalização Flutuador colorido Apenas sinalização — não tem função estrutural

Como é Construída uma Poita

A fabricação começa com a armação metálica: uma alça de inox soldada em uma barra de aço de uma polegada e meia, com ferragem giratória que permite que o cabo rode sem torcer a estrutura. Essa armação é posicionada no molde e o concreto é despejado.

O detalhe que a maioria não sabe: o fundo da poita é propositalmente côncavo.

“Embaixo da poita a gente põe areia para deixar um formato côncavo — para funcionar tipo uma ventosa no fundo do mar. Ela é enterrada no fundo do mar. Se você mergulhar, provavelmente você só iria ver o olhal.”

— Tomás Soffiati, Diretor das Marinas Nacionais, fevereiro de 2024

Depois de moldada e curada, a poita é lançada ao mar no ponto exato da vaga, enterrada por mergulhadores com equipamento de dragagem e conectada à corrente e ao cabo.

Manutenção e Inspeção: O Que Deveria Acontecer

A parte mais crítica do sistema está exatamente onde você não consegue ver. Por isso a inspeção exige mergulhador — não há atalho.

“A cada seis meses a gente contrata um mergulhador de confiança que revisa todas as poitas da Marina. Ele vai ao fundo, confere o olhal da poita, confere elo por elo da corrente, confere a amarração da corrente com o cabo e confere o cabo até a superfície.”

— Tomás Soffiati, Diretor das Marinas Nacionais, fevereiro de 2024

O Que o Mergulhador Verifica Por Quê é Crítico
Olhal da poita no fundo Ponto de conexão entre a estrutura de concreto e a corrente — corrosão aqui compromete todo o sistema
Elo por elo da corrente Um elo fundido por corrosão pode ter carga de ruptura próxima de zero — como mostrado ao vivo no episódio
Conexão corrente-cabo Ponto de maior tensão no sistema — manilhas e sapatilhas devem estar íntegras
Cabo até a superfície A parte mais exposta — fica na linha d’água, sujeita a mais oxigênio e desgaste mecânico
Dado técnico importante: a parte da corrente que fica abaixo da linha d’água — totalmente submersa — dura muito mais do que a que fica na região da linha d’água. O trecho que oscila entre submerso e exposto ao ar é o que oxida mais rápido, por ter mais contato com oxigênio. Por isso o inspetor verifica cada elo individualmente, não o conjunto.

Quem é o Responsável pela Poita

Este é um ponto que muitos navegadores desconhecem — e que tem implicação legal direta.

“Toda poita tem um dono. Para colocar uma poita num determinado lugar, é necessário autorização prévia da Marinha do Brasil. E o proprietário passa a ser responsável por aquela poita.”

— João Roberto Chaves, Unináutica, fevereiro de 2024

Isso significa que:

  • Quem instala a poita precisa de licença da Marinha do Brasil
  • O proprietário é legalmente responsável pelo estado do sistema
  • Em marinas, geralmente é a administração que detém e mantém as poitas
  • O cliente que atraca numa poita mal mantida não tem como saber apenas olhando
Antes de usar uma poita desconhecida: a boia bonita não garante nada. A única forma de saber o real estado do sistema é ter o laudo da última inspeção por mergulhador. Ao atracar em marina, pergunte quando foi a última revisão das poitas.

Píer Flutuante: A Mesma Poita que Segura Seu Barco Segura o Piso

Uma informação que surpreende: o mesmo sistema de poita que fixa os barcos em vaga aberta é usado para fixar os píers flutuantes das marinas.

Tomás Soffiati explica a estrutura dos novos píers das Marinas Nacionais:

“Cada píer tem quatro poitas — duas na frente, duas atrás, uma para cada lado — que deixam o píer no mesmo lugar na vazante e na enchente da maré. São dois cabos, duas correntes, duas poitas em cada ponto. Sobra corrente, sobra poita.”

— Tomás Soffiati, Diretor das Marinas Nacionais, fevereiro de 2024

Componente do Píer Flutuante Especificação
Estrutura metálica Aço galvanizado com pintura epóxi adicional
Flutuação EPS (isopor naval) de 5m × 3,60m × 0,80m revestido em vinil soldado
Piso Concreto — ~5m³, ~10.000 kg por módulo
Fixação ao fundo 4 poitas por módulo de 12m — sistema duplo em cada ponto
Capacidade Embarcações até 100–115 pés

Atracar em Poita Fica Muito Mais Fácil com DPS

A atracação em poita — especialmente solo ou com tripulação reduzida — exige coordenação entre quem está no comando e quem está na proa pegando o cabo. Em barcos maiores, essa manobra é uma das mais estressantes da navegação.

O DPS (Dynamic Positioning System) da Volvo Penta foi criado exatamente para esse cenário: com um toque no joystick, o barco trava na posição enquanto o piloto vai à proa pegar o cabo da poita com calma. Sem correria, sem barco à deriva, sem depender de marinheiro embarcado.

Leia mais: DPS Volvo Penta: Uma Âncora por Satélite e Por Que Ter — o sistema que trava o barco no lugar enquanto você atraca em poita sem marinheiro.
Leia também: Segurança Náutica: Como Evitar um Naufrágio e O Que Fazer Se Acontecer — o checklist completo de prevenção para quem navega no litoral.

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Perguntas Frequentes Sobre Poita Náutica

O que é uma poita náutica?

É uma estrutura de concreto de 3 toneladas ou mais instalada no fundo do mar para fixar embarcações. A boia colorida na superfície não é a poita — é apenas a sinalização. A poita real fica enterrada no fundo, conectada à boia por correntes e cabos.

Como funciona o sistema completo de uma poita?

Poita de concreto no fundo → alça e barra de inox → corrente galvanizada de 19mm → cabo de 2,5 a 3 polegadas → boia de sinalização na superfície. Marinas sérias usam sistema duplo — dois de cada componente — para que se um falhar o outro segure.

A boia bonita significa que a poita está segura?

Não. A parte mais crítica fica submersa e invisível. Uma corrente pode estar fundida por corrosão — com carga de ruptura próxima de zero — enquanto a boia parece estar em bom estado. A única forma de saber é inspeção por mergulhador.

Com que frequência uma poita deve ser inspecionada?

A cada seis meses por mergulhador. A inspeção verifica elo por elo da corrente, o olhal da poita no fundo, a conexão corrente-cabo e o cabo até a superfície.

Quem é responsável pela manutenção de uma poita?

O proprietário registrado — que precisou de autorização da Marinha do Brasil para instalar. Em marinas, geralmente é a administração. O cliente que atraca não tem como verificar o estado do sistema apenas olhando.

Qual a diferença entre poita, boia e cabo de poita?

Poita: estrutura de concreto no fundo — o âncora permanente. Boia: flutuador colorido na superfície — apenas sinalização. Cabo de poita: o cabo que o marinheiro pega e amarra no barco, que vai da boia até a corrente submersa.

Qual o tamanho de barco que uma poita aguenta?

Depende do dimensionamento. Uma poita de 3 toneladas atende barcos menores. Para embarcações maiores usam-se 2 a 3 poitas interligadas. Marinas bem estruturadas conseguem atracar embarcações de até 100 a 115 pés.

O que é um píer flutuante e como ele se relaciona com as poitas?

É uma estrutura de concreto apoiada em flutuadores de EPS revestido em vinil. Fica fixo ao fundo pelas mesmas poitas que fixam os barcos — quatro poitas por módulo, sistema duplo em cada ponto, para que o píer se mantenha estável com a variação de maré.

Assista ao Episódio Completo

No episódio do Mar de Amigos, Tomás Soffiati mostra ao vivo as poitas sendo fabricadas, as correntes retiradas na última revisão — incluindo uma fundida por corrosão — e toda a estrutura dos novos píers flutuantes das Marinas Nacionais em Guarujá.

Referência: CHAVES, João Roberto; SOFFIATI, Tomás. O que olhar ao pegar uma poita. Mar de Amigos — Unináutica, 29 fev. 2024. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=SdJ-b8Xu91w>. Acesso em: julho de 2026.

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